“Era uma vez…”

fotografia de André Corrêa
É assim que começam as histórias infantis. Mas… você já parou para pensar no contexto dessas histórias de garotas submissas que para serem felizes esperam a chegada do príncipe encantado? Já parou para pensar também que os rapazes [necessariamente] são bonitos e ricos.
O casal gaúcho Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso analisaram psicologicamente as histórias infantis no livro Fadas no divã como os contos sobreviveram tanto tempo e se adaptam de acordo com cada época. “Como esses restos de passado vieram parar nas mãos das crianças de hoje?” é o questianamento dos psicanalistas.
O austríaco Bruno Bettelheim publicou na década de 70 a tese que os contos que sobreviveram até hoje são aqueles que mexem com o inconsciente dos narradores e ouvintes. ” Nos contos de fadas, o paciente encontra soluções analisando as partes da história que dizem respeito a seus conflitos”. (Trecho do livro do autor A Psicanálise dos Contos de Fadas)
As histórias se transformaram com o tempo. Adquiriram pudores de acordo com cada época, suas narrativas foram adaptadas com cada sociedade…
“Depois de comer um pouco de carne e beber do sangue da avó, Chapeuzinho Vermelho atendeu ao convite do lobo:
- Tire a roupa, minha filha, e venha para a cama comigo.
O striptease da menina é lento e completo. Passa pelo avental, pelo corpete e pelas meias. Ela joga cada peça no fogo porque o lobo lhe assegura que não precisará mais delas. Deitada com ele, a garota tem uma súbita vontade de urinar. O animal manda que faça na cama mesmo. Chapeuzinho recusa-se. O lobo permite então que ela vá, mas a amarra ao pé da cama com um cordão. Chapeuzinho consegue escapar e corre o mais rápido possível para casa.”
Esse é um trecho da história de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mal em suas primeiras fases.
Maria Emília Traça na obra O Fio da Memória Do Conto Popular ao Conto para Crianças retrata o perfil comum dos heróis…
1. Era uma vez um herói (heroína);
2. Que parte à procura de algo para ser feliz (um objeto, amor, amizade, riqueza…);
3. Ao longo da sua vida sempre alguém o informa ou aconselha;
4. Porém, o herói parte à aventura…
5. No caminho encontra aliados e inimigos…
6. Sozinho ou com ajuda de aliados, vai encontrando obstáculos que consegue, ou não, vencer;
7. Frequentemente consegue aquilo que procura…
8. Todavia, por vezes um inimigo poderoso opõe-se: um gigante, um dragão, um bicho mau…
9. Mas o herói defronta o seu inimigo, contudo, é vencido;
10. O amigo do herói vem em sua ajuda;
11. E o herói volta a defrontar o inimigo e consegue ganhar!
12. Entretanto, durante o(s) seus(s) regresso(s) o herói é perseguido por aliados ou servidores do seu inimigo (irmãos, soldados, monstros…);
13. Vai novamente combatê-los e assim vencer diversos obstáculos, armadilhas e muitas, muitas dificuldades…
14. O herói regressa a casa – FIM – “Casaram-se e viveram felizes para sempre.” ou viverão novas provas, novas peripécias ou novos combates.
As garotas dos contos de fadas como Branca de Neve ou Cinderela, não são aptas a serem modernas e a seguirem um caminho sozinha. Elas precisam que ELE as salvem.
As garotas desde crianças são acostumadas a procurarem o homem perfeito, aquele que virá buscá-la e a salvará de uma vida cruel.
Para os garotos eles aprendem a querer novas aventuras e a desfrutarem de toda a liberdade.
E tudo parece que será..
“FELIZ PARA SEMPRE”

fotografia de André Corrêa
Não conhecia esse lado da história da Chapeuzinho Vermelho!
Gostei desse conto amor! Só sei que não leio mais essas historinhas.
Também gostei da receita para se fazer um SH!
^^